Nadja Tavares
Era segunda de Carnaval, por volta das 21 horas. Estávamos na sala com a TV ligada e ele me perguntou: “a programação vai demorar a acabar?” Respondi que sim, o desfile das escolas de samba ia entrar pela madrugada.
‒ Só posso ir dormir quando a programação for encerrada, para desligar o transmissor.
Foi a primeira vez que o escutei falando coisas sem sentido. E fiquei ali em um misto de impotência e surpresa. Vinha lendo sobre a doença e como lidar com ela, mas assim ao vivo e com uma pessoa da família era diferente da teoria. Sem pensar muito, decidi entrar na realidade dele.
‒ Não precisa esperar, pai. Hoje em dia está tudo automatizado, programado no computador. Assim que a última escola passar, automaticamente o transmissor desliga e a TV sai do ar.
‒ É mesmo? – disse surpreso. Mas caso você precise desligar, é só ir ali ‒ disse, apontando para os fios que passavam por trás do rack e para as luzinhas do modem.
‒ Pode deixar comigo, respondi, enquanto o observava caminhar, tranquilo, para o quarto.
Vários anos trabalhando como técnico de espetáculos em uma TV ficaram registrados na memória, embora a mesma memória não reconhecesse familiares e tivesse dificuldade para discernir entre noite e dia.
Senti uma pontinha de tristeza, mas não quis me deixar envolver por ela. Sei lá por que na hora me veio à memória uma marchinha de carnaval que ouvimos muito em um LP que ele havia trazido para casa: A Noite dos Mascarados, de Chico. “Mas é carnaval, não me diga mais quem é você. Amanhã tudo volta ao normal, seja você quem for, seja o que Deus quiser, seja você quem for, seja o que Deus quiser.” Amanhã nada voltará ao normal, eu sei, mas estarei por aqui, descobrindo como fazer essa fase de vida ser a mais digna possível.