Nadja Tavares
Só queria chegar em casa e tomar um banho, vestir sua velha bermuda, comer um belo cuscuz e se esticar no sofá. Era quarta-feira e que ninguém viesse atrapalhar o seu futebol na TV. Nem Gracinha, com a sua ladainha de mulher. Não sei por que fala tanto, meu Deus.
Saiu do prédio e foi caminhando rápido até o ponto de ônibus. Encontrou a turma de sempre.
‒ O bendito passou? ‒ perguntou.
‒ Ainda não ‒ respondeu uma das mulheres do grupo.
Pelo aplicativo, faltam cinco minutos. E ficaram de prosa. Como era bom prosear com Helena. Ela, sim, sabia conversar, não era como Gracinha, que não tinha uma conversa de futuro. Só falava que queria mais atenção, de pensar no futuro, que isso, que aquilo, mas fazer as vontades dele que era bom não fazia.
Finalmente o ônibus chegou. Lotado. Naquele espaço mínimo, pendurou-se como deu. A coluna começou a cobrar. Foi o esforço de carregar aqueles baldes de água quase a tarde toda. Mas cuidou de pensar em outra coisa. O que era difícil. O suor escorria pelas costas. Para piorar tinha vindo com aquela camisa quente, porque a belezura da mulher não tinha lavado a outra que era mais fresca. Uma mulher desorganizada prejudica o homem em tudo.
Quase 45 minutos depois, desceu no ponto perto de casa. Ô tempo perdido dentro do busão! Entrou pelo beco que dava acesso à pequena vila onde morava. As luzes da casa estavam desligadas. Onde estaria a tagarela da Gracinha? Só sabia reclamar. Para isso era boa. Abriu a porta e foi deixando as coisas e roupas pelo meio do caminho.
Que dia de cão. Faltou água no prédio, o elevador quebrou e ainda teve barraco do morador do 502 com a moradora do 602. Tudo isso com um calor de quase derreter o juízo. O ar-condicionado da portaria quebrado havia uns 15 dias. Nada da síndica resolver. Aposta quanto que se fosse no apartamento dela o equipamento já estaria consertado? É o que dá colocar mulher para mandar em alguma coisa.
Procurou sinal de Gracinha pelos poucos cômodos da construção. Nenhum. Ela só podia estar de brincadeira. Logo no dia de jogo, fazer uma pataquada dessa. Nem o jantar deixou feito. Ia ver só. Esperançoso, abriu o forno para ver se achava alguma comida pronta. Nada. No lugar da refeição achou uma página inteira de caderno com uma única palavra escrita em letras maiúsculas, garrafais: FUI!