Sirenes


Nadja Tavares

Desde sempre Alberto implicava com sirenes. Quando pequeno, ouvia a sirene do carro de bombeiros e saía correndo para a barra da saia da mãe. Mais velho, parou de correr, mas conservava o desconforto ao ouvir aquele som. Era um som que prenunciava tragédias, dizia.

Já na fase adulta, começou a encrencar com sirene de ambulância. Bastava ouvir o som de alerta que lhe subia um arrepio que tomava conta do seu corpo todo. E a respiração ficava ofegante, mais curta. Contava isso aos amigos, que achavam graça das esquisitices dele.

Se estivesse no trânsito então, o incômodo aumentava. A vontade era de descer do carro e organizar o tráfego.
‒ Saiam da frente, suas tartarugas, subam a calçada, o canteiro, mas deixem o caminho livre.

Em um revés, a mãe idosa de Alberto caiu. Suspeita de fratura de fêmur. Nada de movimento. Chamar a ambulância para remoção ao hospital. E ela chegou com aquele alarido que parecia anunciar a fragilidade humana. Os arrepios agora vinham quase sem intervalos. Alguém da família tem de ir junto. O suor começou a aparecer no rosto de Alberto. Até mais alguém da família chegar…tinha de ser ele.

Maca, proteções, cinto, tudo ajustado. Em meio aos pensamentos que chegavam em desalinho, Alberto lembrou das guerras e das sirenes. Como devem ser aterrorizantes os sons que prenunciam a dor. Segurou a mão da mãe e a tranquilizou:
‒ Vai ficar tudo bem.

Partiu a ambulância. A sirene soou ainda mais forte do lado de dentro, mas os arrepios cessaram como por encanto. É a urgência da vida, pensou Alberto. E os carros foram se espremendo para dar passagem a sua mãe.



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Nadja Tavares

E-mail: nadjatavaresautora@gmail.com

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