Sentença


Nadja Tavares

A reclamante alega que a amizade que existia entre ela e o garoto chamado Odilon foi subitamente interrompida sem que tenha recebido qualquer explicação por parte da Ré, que também é sua genitora. Segundo a reclamante, o vínculo entre os dois era muito forte e, mesmo após tantos anos do ocorrido, recorda das muitas atividades que desenvolviam juntos. Relata que, certa feita, os dois combinavam de fazer as pontas dos lápis na lateral do grande quadro verde da sala de aula apenas para ter a desculpa de conversarem. Também lembra que chegou a passar o dia na casa do amigo, apesar da pouca idade, tamanho era o companheirismo entre eles. Na ocasião, recorda ela, passaram a tarde indo e vindo da padaria perguntando se a fornada de pão francês já havia saído. A convivência, segundo ela, durou até o 3° ano primário. No ano seguinte, sem que maiores explicações lhe tenham sido dadas, o amigo saiu da escola e, por mais que indagasse a sua genitora, não obteve êxito em receber qualquer justificativa da ausência dele. Mistério que permanece até hoje e que muito a intriga e entristece.

Diante do trauma emocional gerado pela saída abrupta do amigo da vida da reclamante, sem qualquer comunicação que fornecesse um alento e, considerando que o trauma a acompanha até os dias atuais, condeno a Ré a envidar esforços de busca para encontrar o citado amigo, considerando a facilidade que a tecnologia hodierna oferece na busca de desaparecidos. Outrossim, fica também decretado que não se deve perder de vista as amizades da infância, sem que as crianças envolvidas sejam devidamente notificadas. Com especial atenção às amizades da primeira infância, como as descritas no poema Indivisíveis, de Mário Quintana, no qual o nobre poeta gaúcho escreve:

“O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra
Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.
Falávamos de coisas bobas,
Isto é, que a gente achava bobas
Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.
Crianças...
Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos
A não ser o azul imenso dos olhos dela,
Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,
Nem no cachorro e no gato da casa,
Que tinham apenas a mesma fidelidade sem compromisso
E a mesma animal - ou celestial - inocência,
Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:
Não, não importava as coisas bobas que disséssemos.
Éramos um desejo de estar perto, tão perto
Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas
Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,
Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia
Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida...”

Cumpra-se!

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Nadja Tavares

E-mail: nadjatavaresautora@gmail.com

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